Viagem à Escócia – Descobrir as Highlands

por 2serependiters
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A Escócia é certamente um dos destino perfeitos para qualquer visitante, ou pelo menos, foi o que sentimos. Depois de termos passado alguns dias na capital Escocesa, Edimburgo, e de termos ficado verdadeiramente fascinados com toda a história e património cultural que a  cidade oferece, a nossa viagem à Escócia segue agora com a descoberta da outra face deste país. Assim, vamos dedicar este último artigo às famosas Highlands Escocesas, ou em português, terras altas.

Para termos a noção da dimensão das Highlands Escocesas é importante relembrar alguns factos: A Escócia tem mais de 5 milhões de habitantes e uma área ligeiramente inferior à portuguesa, o que traduz as vastas áreas a norte que têm uma baixa densidade populacional e onde é possível explorar a natureza em bruto, no seu estado mais puro e interessante. Também é importante relembrar que uma parte da Escócia está praticamente à mesma latitude da Noruega o que significa temperaturas geralmente muito baixas e até a possibilidade de observar a famosa aurora boreal (Infelizmente não tivemos essa sorte).

As Highlands escocesas resultam de uma divisão territorial com origem na idade média e que permanece até ao dia de hoje. Historicamente esta é a região das tradições escocesas mais marcadas e aquela com maior predominância da língua gaélico-escocesa (Que permanece em todas as placas nas estradas escocesas). De uma forma geral, esta área tem dois grandes biomas: um de taiga, geralmente encontrado junto às grandes montanhas e em zonas onde neva durante grande parte do ano e outro com floresta nórdica de pinheiros, geralmente nas zonas dos grandes lagos e nos vales. É também nesta zona que se encontram muitos dos antigos castelos que constituíam as várias casas nobres que formavam o reino da Escócia.

Por fim, referir que o roteiro que partilhamos aqui foi feito num só dia, mesmo com várias paragens pelo caminho. Gostaríamos de ter tido mais tempo para explorar a vastidão deste território, mas mesmo com um só dia, tentámos aproveitar ao máximo e desfrutar da nossa viagem à Escócia. Se antes de prosseguirmos quiserem relembrar os outros artigos que já escrevemos sobre Edimburgo, podem consultar aqui a parte 1 e a parte 2.

Como visitar as Highlands a partir de Edimburgo?

Para visitar as Highlands escocesas há 3 grandes possibilidades, com as respectivas vantagens e desvantagens. A primeira é ir de comboio e embarcar numa das mais belas viagens de comboio do Mundo. Os serviços ferroviários escoceses dispõem actualmente de quatro grandes rotas pelas Highlands: De Edimburgo a Aviemore (2h40min), de Glasgow a Fort William (3h50min), de Glasgow a Mallaig (5h30min) e de Inverness a Kyle (2h40min). As rotas com partida em Glasgow implicam ainda apanhar o comboio até Glasgow (1h) o que encarece mais a viagem por este meio de transporte. A grande limitação da viagem de comboio é a deslocação após chegada ao destino, que geralmente implica gastos adicionais com transfers ou autocarros.

A segunda possibilidade é participar numa visita organizada com guia a partir de Edimburgo. Este site apresenta várias possibilidades que vão desde a visita de 1 dia até visitas com a duração de 1 semana. O grande inconveniente desta opção é o preço geralmente elevado, com bilhetes que facilmente ultrapassam os 60€ por pessoa para apenas visitar dois ou três locais de interesse, o que também reduz bastante a liberdade do visitante.

A opção que escolhemos na nossa viagem à Escócia foi o aluguer de carro. No aeroporto de Edimburgo existe um centro de aluguer de viaturas que congrega todas as principais empresas num só local. Após termos pesquisado previamente qual seria a melhor empresa em termos de custo-qualidade, optámos pela empresa Arnold Clark. Optámos ainda por colocar seguro total, sem franquia, especialmente porque iríamos conduzir num terreno difícil e não queríamos ter surpresas. Esta opção permitiu-nos ter toda a liberdade para explorar os vários recantos das Highlands escocesas.

Viagem à Escócia – Roteiro pelas Highlands

Lago Ness (Loch Ness)

O sol tinha nascido à pouco tempo quando finalmente avistámos o famoso lago Ness. Este lago é o segundo maior da Escócia, apenas batido pelo lago Lomond, um pouco mais a sul. No entanto, não é a sua dimensão que faz deste lago um dos mais famosos do Mundo. Foi em 1933 que Alex Campbell, um jornalista de Inverness alegadamente avistou o “monstro” do lago. Descreveu-o como uma criatura pré-histórica, muito semelhante a um dragão e de aspecto assustador. Desde esse momento até à actualidade muitos continuam a visitar o lago na esperança de avistar o famoso monstro, agora já apelidado de “Nessie”.

Tínhamos passado à pouco em Inverness, a capital das Highlands, quando chegámos ao extremo nordeste do lago perto de Dores, uma pequena aldeia encaixada entre as montanhas e o lago. Daqui a vista é já deslumbrante: Temos à nossa esquerda a encosta com uma floresta densa de abetos gigantes e de grandes carvalhos e à direita apenas o azul que se perde de vista e que nos parece terminar com grandes montanhas cheias de neve no topo e envoltas numa névoa leve que esconde a sua base. Vamos percorrendo a estrada estreita e pouco depois de Dores encontramos um campo verde com um dos famosos póneis escoceses de um castanho claro e uma crina extremamente longa e que parece muito interessado na nossa presença, tal como um outro cavalo castanho que por ali anda e que vem ter connosco à cerca.

Percorremos mais um quilómetro e encontramos um parque de merendas mesmo junto à margem do lago. Paramos para comer algo e mais uma vez deixamo-nos invadir pela serenidade natural que este local emana. Só se ouve a água, os pássaros e as nossas vozes. É sem qualquer dúvida um dos pontos altos deste roteiro e só agora estamos a começar.

Pela estrada B862 até Fort Augustus

Vamos já a meio da manhã e continuamos por esta “estradinha” paralela ao lago Ness e encaixada no sopé da montanha. Um pormenor curioso é que esta estrada integra o grupo das “General Wade military Roads”, ou seja, as estradas militares do General Wade, construídas no início do século XVIII com o objectivo de facilitar a deslocação das tropas Inglesas em caso de necessidade de supressão dos rebeldes escoceses. As estradas a construir foram definidas pelo General Wade e esta foi uma delas.

Assim que deixamos de avistar o lago Ness a estrada muda de direcção, curvando para a zona montanhosa. Vamos passando por várias aldeias pequenas que parecem centradas no seu próprio ritmo, num passo calmo, como esta paisagem vai ditando. Após passarmos em Foyers, o rio com o mesmo nome cruza-se com a nossa estrada e é criada mais uma paisagem de postal, com o rio selvagem por entre as árvores cheias de musgo. Mais à frente um grupo de ovelhas e de bodes olham com interesse para nós, parecem recear a nossa presença, mas mesmo assim acabaram por ficar bem na foto (Na nossa viagem à Escócia fomos várias vezes surpreendidos por amigos de quatro patas).

Já quase a chegar a Fort Augustus temos uma das nossas melhores surpresas. Colado à estrada está um lago, que apesar de não ser muito grande, nos oferece uma imagem fantástica! Falamos do lago Tarff e estamos certos de nunca mais esquecer aquelas montanhas cheias de neve reflectidas na água, não se ouve um som…

De Fort Augustus a Fort William

Depois de passarmos em Fort Augustus (A localidade mais importante na margem do Lago Ness) a estrada torna-se mais larga e estamos agora na A82. Uma constante em todos estes caminhos é a vegetação incrível e a beleza única das paisagens (Não há um único Km nestas estradas que não seja deslumbrante!). Nesta parte do percurso, à nossa direita vai-se mantendo o Lago Lochy, um dos mais profundos de toda a Escócia. Associada a este lago está uma lenda muito antiga que refere que daqui teria saído uma cavalo sobrenatural que destruiria os barcos que nele navegavam. Já perceberam que nesta viagem à Escócia descobrimos muitas lendas, algo que é compreensível face à história tão rica e interessante deste país.

Viagem à escócia - Loch Lochy
Lago Lochy

Já a chegar a Fort William ficamos totalmente impressionados com a famosa montanha Ben Nevis. Este é o ponto mais alto do Reino Unido com 1344 metros de altitude e um dos locais mais turísticos das terras altas escocesas, com mais de 100.000 visitantes por ano. Infelizmente o topo da montanha tem alguma neve mas não a suficiente para que a pistas de ski estejam a funcionar, mas mesmo assim, não deixa de ser uma vista imponente aquela que temos a partir de Fort William. Infelizmente passámos apenas por Fort William sem explorar aquela que é a 2ª maior cidade das terras altas, mas do que vimos pareceu-nos um local muito interessante.

Viaduto de Glennfinnan

Este é um daqueles locais que deixou de ser apenas escocês e passou a ser do Mundo. Não sabemos se são fãs da série Harry Potter mas mais uma vez é nesta viagem à Escócia que encontramos uma ligação profunda com os filmes do famoso feiticeiro. Este viaduto com 15 metros de altura e 15 arcos integra a West Highlands Line entre Oban e Mallaig e ficou famoso por aparecer no primeiro filme da saga de J.K. Rowling como parte integrante do caminho para a escola da magia de Hogwarts.

Actualmente existe perto do viaduto um centro de interpretação do qual partem vários trilhos pedestres com vistas fantásticas para o viaduto. Optámos por seguir um destes trilhos que nos levou primeiramente até à base do viaduto, junto a um pequeno lago, e depois, após alguma subida íngreme, até um ponto lateral de onde conseguimos ver a totalidade da estrutura. Adorámos verdadeiramente este local sobretudo pela beleza do enquadramento do viaduto com as montanhas envolventes. Infelizmente não tivemos a sorte de ver uma locomotiva a vapor a passar enquanto ali estávamos, mas mesmo assim, consideramos que é um ponto obrigatório na visita às Highlands Escocesas.

Glencoe, the three sisters and Loch Ba

Costuma-se dizer que o melhor fica reservado para o fim. Depois de todos os locais fantásticos que já tínhamos visitado durante a manhã e início de tarde, não acreditávamos que isso fosse possível. Assim que nos começámos a aproximar do vale de Glencoe a paisagem vai ficando cada vez mais interessante. No meio de montanhas verdejantes está um grande vale preenchido com o lago Leven. Paramos aqui um pouco simplesmente para apreciar esta vista magnífica. Glencoe é uma vila no sopé da montanha com vários hóteis e pubs típicos e que vive sobretudo dos desportos aquáticos no lago e como ponto de paragem para os montanhistas que se aventuram nas montanhas desta zona.

Continuamos a nossa viagem à Escócia pela A82 e a paisagem começa a mudar. Estamos agora numa estrada que serpenteia um vale no fundo de grandes montanhas de uma lado e de outro. Alguns minutos depois chegamos ao local mais bonito de todo o nosso percurso, falamos do miradouro de Three Sisters. Este nome deriva do facto de ali se encontrarem três grandes montanhas: A short Ridge, a Black Ridge e a Long Hill. A vista neste ponto é simplesmente de tirar a respiração. No topo das montanhas vemos a neve que se transforma em dinâmicas quedas de água que escorrem por entre as colinas verdes e que por fim culmina com um rio que corre violentamente na base do vale até que finalmente atinge um pequeno lago. Ficámos neste local durante muito tempo, não só a tirar fotografias mas sobretudo a disfrutar deste pequeno cantinho escocês verdadeiramente belo.

Percorremos mais alguns quilómetros e mais uma vez a paisagem voltou a mudar (A Escócia tem uma harmonia de biomas incrível!). Estamos agora num grande planalto, com planícies de perder de  vista, apenas interrompidas pelo lago Ba. Aqui o terreno costuma estar coberto de neve e por isso os campos são de erva amarelada e com praticamente uma ausência total de árvores ou arbustos. Foi neste local que nos apercebemos verdadeiramente da vastidão das Highlands escocesas e do quão resilientes tiveram de ser as várias tribos para se implementarem neste território.

Castelo de Kilchurn

Faltava menos de uma hora para o sol se por mas ainda assim não quisemos deixar de visitar um dos famosos castelos escoceses (Um dos grandes motivos que nos levou a fazer esta viagem à Escócia). Depois de alguns quilómetros à beira de rios e de florestas de abetos, chegámos finalmente ao Castelo de Kilchurn. Coladas ao lago Awe ficam agora as ruínas deste castelo que terá sido construído no século XV. Esta terá sido a base da família Campbell que controlava todo o território naquela zona e que servia o rei escocês.

Durante os tempos áureos do castelo este estaria numa ilha, mas hoje em dia temos de percorrer aproximadamente um quilómetro numa planície até chegar ao castelo. Conseguimos chegar ainda com uma parte do sol no horizonte o que nos proporcionou um momento incrível em que as cores vivas do sol se reflectiam no lago junto ao castelo.

As Kelpies

Apesar da noite ter finalmente chegado a nossa viagem à Escócia continuou! Foram três horas de caminho até chegar aos subúrbios de Edimburgo, mais propriamente à cidade de Falkirk. O que nos levou a este local eram 2 estátuas praticamente desconhecidas dos roteiros escoceses mas que tínhamos descoberto por acidente uns dias antes de partirmos. Falamos pois das Kelpies. Estas estátuas com 30 metros de altura ficam no Helix Park, perto do rio Carron e visíveis da auto-estrada. Esta obra magnífica foi inaugurada em 2013 mas o projecto iniciou-se em 2005. Construídas em ferro, estas magníficas estátuas têm como objectivo realçar o papel do cavalo na história e a cultura escocesa.

Mesmo na noite escura e fria, ao chegarmos junto deste local sentimos-nos aquecidos e deslumbrados. À nossa frente estavam duas cabeças de cavalo imponentes e de cobres vibrantes que iam alterando a cada 30 segundos. Não tivemos qualquer dúvida de que se trata não apenas de uma obra magnífica de design e arquitectura, mas também de uma obra estrondosa de engenharia e que é passagem obrigatória numa viagem à Escócia.

Terminamos com este artigo a nossa viagem à Escócia. Podemos dizer que foi uma experiência verdadeiramente incrível e que nunca esqueceremos. Estamos certos que ainda nos faltou muito para visitar nas Highlands Escocesas, mas contamos mesmo voltar muito em breve. Esta Viagem à Escócia mostrou-nos que ainda existem verdadeiros paraísos naturais na Europa e cidades icónicas e culturais como Edimburgo.

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2 Comentários

Mario santos Janeiro 21, 2019 - 10:48 am

Caro Pedro e Joana
Parabéns pelo excelente roteiro e texto . Vou para 4 dias para Edinburgh e certamente estarei a seguir as vossas sugestões

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Margarida Carrilho Janeiro 22, 2019 - 11:52 am

Fiz esta viagem de carro em 1999 com os meus pais, fiquei com vontade de voltar a fazê-la ! Muito bom artigo, Parabéns !

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