Visitar Bruges, um postal idílico em tons reais

por 2serependiters
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Visitar a Bélgica foi sem qualquer dúvida uma experiência única, não só por termos visitado cidades com particularidades incríveis, mas também porque aqui encontrámos quase sempre beleza em várias formas distintas, seja na forma de arte, na forma de arquitectura, de paisagens ou até de experiências e tradições. Visitar Bruges foi acima de tudo poder desbravar esta simbiose de coisas boas e tentar absorver a alma belga numa só cidade, que neste caso é também uma cidade marcadamente europeia em si.

Esta cidade situada a noroeste da Flandres belga e com 118000 habitantes é um dos destinos europeus mais populares e certamente um dos postais belgas mais famosos. Desde a pré-história que ali existia uma povoação mas foi só a partir do século XII que Bruges atingiu a sua época áurea. Em 1089 esta cidade tornou-se a capital da Flandres e o seu crescimento tornou-se possível com a criação de uma rede de canais artificiais que ligavam a cidade ao mar, fazendo desta um importante ponto de comércio. A grande vantagem de Bruges face a outras cidades belgas assentava na sua proximidade com as principais rotas de comércio da liga Hanseática que naquela altura controlava o comércio Mundial.

A partir do século XV a cidade foi perdendo alguma relevância a nível comercial mas tornou-se famosa a nível turístico já no fim do século XIX. Incrivelmente, a cidade não foi destruída durante a primeira e segunda grandes guerras e assim, o seu centro histórico permanece uma janela aberta para o passado desta cidade e da Bélgica, razão pela qual foi classificado como património da UNESCO.

Como visitar Bruges?

A partir de Bruxelas existem várias opções para chegar à cidade de Bruges. Existem tours de autocarro com guia a partir da capital (Podem reservar aqui) e existe sempre a opção de alugar um carro. No entanto, a opção que escolhemos é possivelmente aquela que melhor permite desfrutar da viagem e apreciar a Bélgica a um preço relativamente baixo. Optámos pelo comboio e podemos desde já dizer que o serviço de comboios belga (SNCB) é de grande qualidade. Comprámos o rail pass na estação do aeroporto de Zaventeem, que assegura 10 viagens em qualquer comboio, para qualquer destino na Bélgica e em 2ª classe. O preço é de 83€ e o passe pode ser utilizado por mais do que uma pessoa o que para nós foi perfeito pois permitiu gerir as várias viagens de comboio pela Bélgica para duas pessoas, sem necessidade de comprar dois bilhetes distintos.

Roteiro pela cidade

Ruas Oostmeers e Westmeers

Para quem chega a Bruges a partir da estação de comboios, a rua Ostmeers é a entrada natural na cidade. Esta rua é parte integrante de um conjunto de ruas que forma um quarteirão conhecido como De Meers. O que realmente se destaca nesta zona da cidade é a arquitectura, com pequenas casas num estilo muito associado ao início do século XX e que encaixam perfeitamente nas ruas em calçada onde o principal meio de transporte é mesmo a bicicleta (Ao visitar Bruges ficámos com a ideia que ali todos os habitantes se deslocam de bicicleta!).

É também aqui que começam a aparecer os edifícios em tijolo, tão característicos de Bruges e, de uma forma geral, de todas as cidades que tinham ligações à liga Hanseática, sendo possível observar o mesmo tipo de arquitectura em algumas zonas de Hamburgo, por exemplo.

Rua Zuidzantstraat e catedral do Santo salvador

Continuando a percorrer os recantos magníficos da cidade de Bruges, chegamos àquela que é uma das suas ruas mais movimentadas e mais históricas. A Zuidzantstraat era antigamente uma das principais estradas de entrada em Bruges e que com o passar do tempo foi sendo integrada na cidade, sendo actualmente a principal rua de comércio de Bruges . Ao visitar Bruges, foi aqui que sentimos mais os efeitos do turismo, existindo nesta rua várias marcas internacionais que nalguns casos descaracterizaram alguns edifícios antigos. No entanto, esta rua permanece um verdadeiro museu ao ar livre, com inúmeros edifícios antigos optimamente conservados e com várias pequenas ruas transversais que merecem um pequeno desvio para tirar algumas fotos e visitar algumas das lojas mais antigas .

É na primeira metade desta rua famosa que encontramos a catedral do Santo Salvador. Esta catedral constitui uma das 4 grandes torres da cidade e permanece praticamente inalterada desde a sua construção em 1250. Ao chegarmos perto deste grande edifício ficámos verdadeiramente impressionados com a imponência da sua estrutura. Todo o edifício é feito em pedra escura, mas o que capta imediatamente o nosso olhar é mesmo a torre alta da catedral, com as suas reentrâncias e pequenas janelas que por momentos nos fazem lembrar um castelo ou um palácio. O interior da catedral não é muito rico, mas o órgão gigante merece um olhar atento.

Grote Markt e Torre Belfort

Depois de percorrermos a Steenstraat chegamos finalmente àquele que é um dos pontos altos ao visitar Bruges. Perante os nossos olhos temos agora uma praça ampla e rodeada de edifícios antigos. Estamos então na Grote Markt, em português grande praça, um ponto nevrálgico na cidade de Bruges do século XII e uma janela aberta para a identidade desta cidade. Aqui estão reunidos alguns dos edifícios que mais gostámos e destacamos sobretudo as casas coloridas no topo norte da praça que mantêm uma marca da arquitectura belga e que estão muito bem conservadas. É também nesta praça que se encontra o museu da história da cidade, mas que optámos por não visitar face ao preço elevado do bilhete. Acima de tudo, o que sentimos neste local foi uma mistura de passado e presente, de história e futuro e acima de tudo, um sentimento europeu, que não se descreve facilmente em palavras.

No topo leste desta praça encontra-se a torre de Belfort. Quando pensámos em visitar Bruges foi este o primeiro monumento que vimos referido, sendo um dos destaques patrimoniais mais importantes desta cidade. Esta torre foi construída em 1240 e em grande parte financiada com os lucros das trocas comerciais de tecidos.  Ao longo dos séculos subsequentes foi sofrendo algumas ampliações, tendo a última sido feita em 1822, permanecendo praticamente inalterada desde então.

Este é um dos locais que não deve ser ignorado ao visitar Bruges. O bilhete custa 12€ para cada pessoa e pode ser adquirido presencialmente à entrada. Curiosamente no dia em que visitámos não encontrámos muitos turistas e não existia qualquer fila para visitar a torre. A visita inicia-se com uma exposição nos dois pisos mais baixos onde é retratada a história da torre de Belfort, destacando a importância desta na cidade de Bruges. A partir daí a subida é íngreme e feita por uma escada de caracol até ao topo da torre de onde é possível conseguir a melhor vista da cidade.

Aconselhamos mesmo que subam ao cimo da torre porque foi um momento que tão cedo não esqueceremos e estamos certos que não deixará nenhum visitante indiferente. Um pouco antes de chegar ao topo encontra-se a sala dos sinos, ocupada por um complexo mecanismo de metal ainda em funcionamento e que assegura há vários séculos que o toque dos sinos da torre é feito, não só à hora correta, mas com uma composição musical única. É importante também reforçar a importância que o toque do sino teve historicamente na vida de todos os habitantes de Bruges, marcando o tempo e sinalizando também vários eventos sociais e emergências, como incêndios e inundações.

Praça Burg

Continuando a caminhar por esta cidade de conto de fadas, descobrimos por acaso a praça Burg e só mais tarde nos apercebemos que este é também um dos locais históricos mais importantes da cidade. A praça Burg é constituída por alguns dos edifícios mais antigos da cidade de Bruges, tendo sido aqui que o conde da Flandres independente estabeleceu a sua corte, no século IX. Algo que achámos magnífico também é o facto de aqui se encontrarem três estilos arquitectónicos distintos: O gótico, o românico e o neoclássico.

O nosso destaque vai para o edifício da câmara municipal de Bruges. Construído em 1376, é impossível não ficar fascinado com a riqueza desta fachada repleta de talhas douradas e de várias esculturas representando vários condes e figuras bíblicas. Para além disso estão ainda gravados na pedra clara todos os brasões das antigas constituências da Flandres e o topo da fachada está repleto de bandeiras. Tudo isto faz deste edifício um ponto de visita obrigatório para qualquer visitante.

Zona envolvente dos canais centrais

Uma das primeiras imagens em que pensamos ao visitar Bruges são os famosos canais que fazem desta cidade a Veneza da Europa Central. O filme “In Bruges” com Colin Farrel também deu grande enfoque a esta zona da cidade e ao ambiente criado em torno dos famosos canais da cidade. O canal Groenerei é o principal canal de Bruges e um dos mais cénicos que encontrámos. Na envolvência deste canal, que na realidade é um aproveitamento do percurso natural de um rio, encontrámos pontes históricas, fábricas antigas e certamente enquadramentos que não vamos esquecer pela beleza magnífica que representam.

O percurso que fizemos seguiu pela rua com o mesmo nome, na direcção sudoeste, seguindo pela rua Djiver até chegarmos à igreja de nossa senhora. Esta constitui mais uma das famosas 4 torres históricas de Bruges, permanecendo o segundo edifício mais alto da cidade. Este é um local com uma importância histórica que não devemos ignorar. Aqui estão enterrados os últimos duques da Burgúndia e é também aqui que é possível encontrar uma obra criada por Michelangelo. Gostámos do interior da catedral, mas foi o ambiente exterior que nos cativou mais.

Bem perto da catedral é possível encontrar um parque com esculturas muito interessantes, um antigo mosteiro e a ponte de Bonifácio, uma das mais antigas a atravessar os canais de Bruges. Este é mais um dos recantos mágicos da cidade e um dos locais mais fotogénicos da cidade.

Quarteirão de Santa Ana e os moinhos de vento

A zona nordeste da cidade de Bruges é frequentemente ignorada pelos visitantes, possivelmente por não ter tantos monumentos famosos como as zonas que já referimos neste roteiro. Viemos a descobrir que na realidade é possível encontrar vários pontos de interesse no quarteirão de Santa Ana. É aqui que encontrámos a zona mais alternativa desta cidade histórica, com vários edifícios únicos do ponto de vista arquitectónico. Percorremos a Langestraat do início ao fim e pelo caminho vimos várias livrarias antigas, galerias de arte e antiquários. No fim desta rua extensa, aguardava por nós uma agradável surpresa. Falamos da Kruisport. Este era o principal ponto de entrada na cidade amuralhada de Bruges no século XIII, tendo sido renovado vários anos mais tarde.

Após sairmos da zona histórica, entramos no parque que rodeia toda a antiga cidade amuralhada e que segue sempre paralelo ao Handelskom, o canal que rodeia todo o centro histórico de Bruges. É aqui que encontramos o Bonne Chieremolen, construído em 1844 e renovado em 1911, um moinho de grandes dimensões e que nos transporta para uma outra época, talvez inspirados por referências cinematográficas antigas com referência aos países baixos. Para além deste moinho, existem também nesta zona mais 2 moinhos que devem visitar: O Koeleweimolen e o moinho Sint-Janshuismill.

Begijnhof

Antes de voltarmos para a estação não quisemos deixar de visitar um local frequentemente ignorado, mas muito interessante. Percorremos quase 2 quilómetros sempre pelo parque exterior de Bruges e 20 minutos depois estávamos perto do nosso ponto de partida. O Begijnhof é o único Beguinage de Bruges, ou seja, um quarteirão que albergava beguines, mulheres religiosas mas que não prestavam votos nem se isolavam do mundo exterior. Esta beguinage foi criada em 1244 e funcionou durante vários séculos, até 1927, altura em que passou a ser um convento de monges beneditinos. É possível encontrar aqui também uma igreja gótica onde as beguines se dedicavam aos trabalhos religiosos.

Adorámos mesmo este pequeno recanto! Existe neste local uma harmonia perfeita entre as casas brancas, todas alinhadas e o pátio largo, com tulipas ainda sem flor e árvores despidas e dispersas na relva. Não deixem de visitar este local pois representa uma parte importante da história religiosa de Bruges.

Fizemos todo este roteiro numa só manhã que começou bem cedo. Sabemos que possivelmente alguns locais de interesse e museus ficaram por visitar, mas este roteiro é certamente um bom guia para quem pretende ter uma visão abrangente da cidade de Bruges e da história riquíssima que se esconde nela. Adorámos visitar Bruges e não temos qualquer dúvida de que esta é uma das cidades mais bonitas da Europa.

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1 Comentário

Cristina Fevereiro 16, 2019 - 9:56 pm

Excelente. Já me falaram muito da cidade e sempre o melhor possível.

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