Visitar Ghent, a surpresa que a Bélgica nos guarda

por 2serependiters
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Visitar a Bélgica é acima de tudo uma viagem a um país multifacetado, uma descoberta de várias confluências históricas, culturais e de costumes, proporcionando ao visitante uma experiência que não se encontra com frequência na Europa e que se torna extremamente enriquecedora. Grande parte desta beleza particular advém do contributo das suas várias cidades, sempre riquíssimas em património e com tanto para descobrir. Assim, visitar Ghent foi uma experiência que merece todo o nosso destaque.

Com aproximadamente 260 mil habitantes, esta é a segunda maior cidade da Flandres depois de Antuérpia, no entanto, é frequentemente ignorada nos guias turísticos em detrimento da cidade vizinha de Bruges. Historicamente, Ghent sempre foi um importante centro religioso e no século XI já era uma cidade estado. Pelo século XIII era a segunda maior cidade europeia a norte dos Alpes, apenas ultrapassada por Paris, sendo um importante centro de cultura e conhecimento. A revolução industrial fez desta cidade um importante pólo na indústria têxtil e um centro chave nas trocas comerciais de produtos manufacturados. Tal como outras cidades belgas importantes, Ghent foi também poupada durante a segunda guerra Mundial.

Podemos certamente dizer que visitar Ghent foi uma grande surpresa para nós, sobretudo porque arquitectonicamente apresenta muitas semelhanças com Bruges mas com menos foco turístico que esta última, o que a transforma automaticamente num diamante em bruto para os visitantes.

Como visitar Ghent?

De forma a tirar o máximo partido do nosso rail pass (Podem saber mais aqui ou ler o artigo de Bruges), optámos por visitar Ghent e Bruges no mesmo dia. Assim, o nosso meio de transporte escolhido foi o comboio, sendo a viagem extremamente rápida e confortável. A estação de comboios de Ghent fica ainda fora do centro histórico da cidade e por isso escolhemos utilizar o sistema de eléctricos da cidade para nos levar até aos monumentos principais. O bilhete pode ser adquirido na paragem da estação e o bilhete diário custa 8€, o que compensa face ao bilhete simples de ida e volta.

Dentro do centro histórico, optámos por visitar Ghent a pé, sendo possível visitar as principais atracções da cidade sem percorrer grandes distâncias. Para além disso, percorrer esta cidade a pé permitiu-nos desfrutar de um dos principais trunfos de Ghent: A sua arquitectura magnífica.

Roteiro por Ghent

Rua Savantstraat/Veldestraat

Optámos por sair do eléctrico ainda fora da principal zona histórica da cidade e percorrer assim a rua Savantstraat, que mais à frente se transforma na rua Veldestraat. A maior surpresa para nós foi o facto destas ruas não turísticas esconderem na realidade um património material e imaterial merecedor de uma visita atenta. A parte inicial da rua é claramente uma tradicional rua citadina belga, com fachadas de cores claras, pintadas e ocasionalmente um edifício em tijolo. Nesta zona da cidade encontram-se várias lojas de antiguidades que guardam verdadeiras relíquias e também alguns trabalhos de arte de rua muito interessantes e que animam as ruas transversais.

Após passarmos o canal Ketelvest, um dos principais e mais antigos de Ghent, surge à nossa esquerda o tribunal de relação de Ghent. Na realidade, muito mais que um tribunal, este edifício é uma obra arquitectónica notável, num estilo neoclássico palaciano e que é merecedor de um olhar mais atento. A rua segue movimentada, abrindo-se em várias lojas famosas e vários cafés e restaurantes.

Praça Korenmarkt e ponte de St. Michiels

O término da rua Vedelstraat é na realidade um momento contemplativo fantástico, porque damos por nós naquela que é uma das principais praças da cidade de Ghent, o Korenmarkt. Esta praça tem o seu período áureo no século XI, altura em que Ghent era a principal cidade no comércio de cereais na Flandres belga e era aqui que se efectuavam as principais trocas comerciais. Este dinamismo económico na idade média foi contribuindo para o enriquecimento arquitectónico dos edifícios que rodeiam a praça.

Ao visitar Ghent não podemos ignorar a igreja de São Nicolau que se mantém imponente bem no centro do Korenmarkt e que representa uma das principais atracções desta cidade belga. Construída no início do século XIII, esta igreja em estilo gótico foi desde sempre um ponto nevrálgico na vida da cidade de Ghent e era sobretudo frequentada pelos membros das guildas comerciais que dominavam o Korenmarkt. Ao longo dos anos foi renovada várias vezes, no entanto, a estrutura das naves centrais mantém praticamente inalterada,

Ficámos verdadeiramente impressionados com esta igreja, e sobretudo, com a beleza exterior da mesma, com vários retalhos e esculturas que a equiparam a várias catedrais europeias. Ainda assim, no interior da igreja não devem deixar de visitar o órgão que na realidade foi ali construído em 1840 e que se mantém ainda em funcionamento.

Num dos topos desta praça central encontra-se a ponte Sint Michielsbrug. Em português, ponte de São Miguel, esta é possivelmente a ponte mais famosa nos roteiros para visitar Ghent. Construída em 1910, esta estrutura em estilo neo-gótico guarda uma das mais belas vistas desta cidade, com um enquadramento para os principais pontos de interesse no centro histórico da cidade e uma certa magia que se sente ao percorrer a pedra gasta desta ponte.

Korenlei e Grasbrug

Depois de passarmos o rio Lys, estamos agora numa zona que apesar de não tão movimentada, nunca deixa de nos impressionar, sobretudo pela autenticidade que congrega. A rua Korenlei extende-se entre as duas principais pontes do centro histórico e reserva locais calmos para nos sentarmos e apreciarmos a magnífica arquitectura na outra margem. Foi aqui que conseguimos finalmente captar a imagem perfeita de Ghent e é nesta zona que ainda é possível notar algumas das antigas companhias comerciais que fizeram de Ghent uma cidade próspera.

No final deste passeio ribeirinho encontramos a Grasbrug, uma ponte muito similar à Sint Michiels mas ligeiramente melhor cuidada. Os locais referem que esta zona é o verdadeiro orgulho da cidade, sobretudo porque se mantém arquitectonicamente semelhante ao que era nos séculos XI a XIII, altura em que Ghent atingiu o seu expoente máximo.

The Gravensteen

O que sentimos ao visitar Ghent é que se trata de uma cidade que nos guarda surpresas ao virar da esquina. O castelo de Gravensteen é um desse exemplos. Depois de vários metros em pequenas ruas pitorescas e tipicamente belgas, eis que nos deparamos com uma fortaleza imponente e rodeada de água, tal como esperaríamos encontrar num filme sobre a idade média. Construído em 1180, este castelo foi durante vários séculos a residência oficial dos Reis da Flandres. Durante quase 10 séculos, este foi um dos principais bastiões de defesa de Ghent contra os invasores e um ponto estratégico no controlo da região.

Actualmente encontramos aqui um museu cujo o foco principal são as armas, com vários eventos de guerra representados e vários modelos de espingardas, espadas e escudos, sempre com uma explicação detalhada que ainda torna a experiência mais interessante. O bilhete para o museu e para a visita às muralhas do castelo pode ser adquirido no local e custa 10€. Não deixem de explorar bem esta zona da cidade que reserva alguns dos edifícios mais antigos e interessantes da cidade.

Vrijdagmarkt

Podemos desde já dizer que esta praça não estava no nosso itenerário principal. Isso fez com que nos surpreendêssemos ainda mais quando descobrimos este recanto da cidade. No limite norte do centro histórico de Ghent, a praça Vrijdagmarkt, em português, praça do mercado de sexta-feira é sobretudo uma surpresa do ponto de vista arquitectónico. Aqui encontramos vários estilos distintos mas extremamente interessantes para o visitante. Esta praça é uma das mais antigas da cidade, sendo tradicionalmente um  local onde se faziam trocas comerciais numa prática que se terá iniciado neste local por volta do século XII.

A praça é ampla, bem cuidada e no centro encontra-se a estátua de Jacob Van Artevelde, um dos homens mais importantes da política e da história da cidade de Ghent e da Flandres. Ainda assim, o que nos fascinou mais neste local foi o edifício Bondmoyson. Construído no século XVIII, tal como a maioria dos edifícios desta praça, este é possivelmente um dos melhores exemplos de art-nouveau em Ghent. Projectado para servir como edifício multi funcional, o arquitecto socialista desenhou este edifício a imagem dos ideais da altura, no entanto, o edifício acabou por servir apenas como a sede do sindicato e do partido socialista belga. Ainda assim, este recanto merece ser descoberto por quem visitar Ghent.

Rua Belfort e campanário de Ghent

A rua Belfort é possivelmente uma das mais bonitas da cidade. Começando praticamente numa zona sem grande monumentos de interesse, esta rua vai-se tornando progressivamente mais ampla à medida que se aproxima do centro mais antigo da cidade. É também nesta rua que se encontra a antiga câmara municipal de Ghent (Stadthuis) que é, sem sombra de dúvidas, um edifício peculiar e que salta imediatamente à vista. Uma das muitas particularidades que fazem deste edifício único é o facto de conter dois estilos arquitectónicos extremamente distintos: A primeira parte do edifício extremamente rica e ornamentada foi construída em estilo gótico e a segunda parte do edifício, de linhas simples, foi construída num estilo renascentista.

É também neste edifício que se encontra uma das mais históricas capelas de casamentos da cidade, parte integrante do verdadeiro labirinto que constitui o edifício e que envolve mais de 50 salas distintas. A visita ao stadthuis é aoenas possível com um guia, no entanto, os percursos gratuitos frequentemente incluem este monumento, permitindo que a visita fique gratuita.

No fim da magnífica rua Belfort encontramos o campanário de Ghent (Het Belfort Van Ghent), uma torre magnífica que se impõe sobre toda a zona histórica da cidade. Com 91 metros de altura, este é o campanário mais alto da Bélgica e integra a lista de campanários a visitar em França e na Bélgica, constituindo património da UNESCO. A sua construção iniciou-se em 1313 e aproximadamente 60 anos depois estaria concluída. Nos séculos seguintes esta estrutura foi várias vezes renovada, mas a sua função essencial foi-se sempre mantendo, assumindo um papel crucial não só a nível do toque dos sinos, mas como torre de protecção da cidade de Ghent.

Este é um dos pontos de passagem obrigatórios ao visitar Ghent e depois de termos feito todo o roteiro que já referimos, chegar a este campanário foi uma sensação incrível, especialmente depois de passar a tarde sempre a tê-lo como referência ao longe. Ficámos fascinados não só com a beleza da torre do campanário, mas também com a envolvência do mesmo, com as pequenas casas a que a Bélgica nos habituou pintadas com as suas cores claras e ao mesmo tempo, tanta história e tantas histórias para descobrir.

Catedral de São Bavão

O nosso percurso pela zona histórica da cidade termina neste que é certamente um dos monumentos mais importantes e mais fotografados da cidade de Ghent. A catedral de São Bavão (Sint-Baafs Cathedral) é uma catedral em estilo gótico que não deixará nenhum visitante indiferente. A estrutura original remonta a 900 e partir daí a igreja foi sendo progressivamente expandida. Foi só no século XV que esta igreja ficou com a estrutura que hoje podemos ver e visitar. No século XVI passou a Catedral e tornou-se o centro da diocese de Ghent.

O seu interior é rico e merece uma visita. Destacamos sobretudo a colecção de pinturas que constitui o painel do altar principal da catedral. Estas foram pintadas no início do século XV e constituem uma das melhores janelas artísticas para a arte dos países baixos e que serviu posteriormente de base a vários pintores famosos. Esta colecção de painéis é considerada um dos maiores tesouros artísticos da Europa. Ao visitar Ghent, não deixem de entrar na Catedral! A visita custa apenas 4€ e os bilhetes podem ser adquiridos à entrada. Se são apreciadores de arte como nós vão adorar.

A cultura da Cerveja em Ghent

A cerveja assume uma importância muito significativa na cultura Belga. Até chegarmos à Bélgica, a ideia que tínhamos era de que a cerveja Alemã seria a referência Europeia e de que a cerveja Belga, apesar de boa, ficaria um pouco atrás. Assim que começámos a visitar as várias cidades Belgas, essa ideia mudou totalmente e percebemos que não só a cerveja Belga é verdadeiramente fantástica, como cada cidade tem dezenas de cervejas locais e a sua própria cultura de cerveja.

Existem vários tipos distintos de cerveja, dos quais destacamos: A cerveja Trappist, que é produzida localmente em mosteiros certificados e cujo o dinheiro recebido com a venda da cerveja reverte para programas de apoio social na comunidade. A cerveja Abbey, que é também produzida em mosteiros mas que não têm certificação ou em destilarias que têm acordos com mosteiros, a pale beer , tripel e golden ale. Existem muitos mais tipos de cerveja, mas diríamos que estes são os mais comuns.

Em Ghent, tal como noutras cidades Belgas, existem imensos locais fantásticos para experimentar cervejas locais mas tivemos a sorte de encontrar um local muito calmo e com uma decoração fantástica. Descobrimos assim o bier Central, um amplo pub que abriu ao público à pouco mais de 3 meses e que tem centenas de cervejas diferentes na sua carta. Outra surpresa foi termos sido atendidos por um rapaz português que nos ajudou bastante com a escolha da melhor cerveja local. A gruut blond é uma das cervejas locais e continua a ser uma das nossas cervejas favoritas de toda a viagem!

Adorávamos visitar Ghent e podemos dizer que foi para nós uma das maiores surpresas na Bélgica. Quase sempre ouvimos falar de Bruges e esta cidade é quase sempre esquecida, mas esse é um erro tremendo. O melhor de Ghent é mesmo ser uma cidade cheia de surpresas, que não vão deixar nenhum visitante indiferente.

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