Marialva, aldeia histórica no seu pleno

por 2serependiters
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Portugal é um país marcado pela história, de norte a sul e de este a oeste. Algo que importa destacar é que a grande maioria deste património histórico não se encontra apenas em cidades mas sim distribuído por pequenas aldeias e vilas, grande parte delas no interior do país (Podem ler o nosso artigo de Longroiva). Assim, as viagens em busca do nosso património histórico são também viagens pelas tradições centenárias que nos caracterizam, pela humildade das gentes que trabalham os campos e por uma gastronomia que nos marca sempre, mesmo quando já a conhecemos bem. Visitar Marialva é tudo isto, num só local, que não parou no tempo porque se reinventou e hoje nos oferece uma experiência magnífica que vos passamos a contar de seguida.

Aldeias históricas e Marialva

O Projecto das aldeias históricas de Portugal tem como objectivo promover o turismo sustentável em torno das aldeias e vilas que historicamente se destacam e que retêm na sua essência muito daquilo que é a nossa portugalidade e as nossas tradições. Actualmente, são 12 os locais que integram esta rede e que se distribuem essencialmente no centro de Portugal, entre o alto Alentejo e Beira alta. Para além das aldeias em si, também os caminhos entre elas são destacados e estão sinalizados, oferecendo a quem visita uma experiência completa.

Com apenas 255 habitantes, Marialva fica localizada no concelho de Mêda, distrito da Guarda. Todos os caminhos nesta região sinalizam a rota das aldeias históricas e portanto foi para nós natural ir visitar este local magnífico. A história desta pequena aldeia vem já desde o tempo dos romanos, estabelecendo-se como a confluência de várias estradas romanas importantes, e portanto, um local de paragem para muitas caravanas comerciais. Posteriormente foi ocupada pelos visigodos e mais tarde pelos árabes, tendo sido reconquistada em 1063. Em 1179 recebeu o seu foral e nos séculos seguintes foi sendo progressivamente desenvolvida e fortificada, tendo atingido o seu auge no século XIX. Os tempos modernos trouxeram o êxodo rural a esta região e Marialva foi perdendo habitantes, no entanto, o património fica para sempre num acervo que merece ser visitado e divulgado.

Visitar Marialva

A entrada pela estrada empedrada torna ainda mais especial o momento em que cruzamos a placa que sinaliza Marialva. A entrada da aldeia é em si uma janela para uma história rica, com várias casas construídas integralmente em pedra e gente que vai observando com atenção a nossa passagem pela estrada. Iniciamos logo desde muito cedo a subida que possivelmente nos levará às imediações do castelo, mas a meio do caminho tivemos de largar o carro e percorrer o resto do percurso a pé.

As ruas estreitas do centro da aldeia são ainda assim totalmente cativantes. As casas estão bem conservadas e quase sempre há na sua fachada alguma peça de artesanato desta região. Não nos cruzamos com ninguém nestas ruas o que torna esta visita ainda mais especial porque a calma que se sente em Marialva acentua as imagens e os cheiros que preenchem as ruas. Continuamos a subir e damos por nós na praça do cruzeiro, junto à entrada do castelo. Esta estrutura foi construída no século XV e marca uma das principais praças da aldeia, numa zona onde antigamente se encontravam as casas judias.

Passamos o posto de turismo da aldeia e um pouco mais à frente encontra-se uma capela que nos salta imediatamente à vista. A capela de São João Baptista é uma pequena estrutura em pedra que se encontra adornada com vários trabalhados em pedra da mesma cor. Uma placa informa-nos que se trata de uma estrutura que seria parte integrante de um mosteiro templário e que terá sido ampliada no século XVII. É importante destacar toda a envolvência desta zona da aldeia, com todas as casas em pedra e extremamente bem conservadas, num esforço marcado por parte da autarquia de Mêda e da junta de freguesia no sentido de preservar o património tão rico que constitui esta aldeia. Infelizmente o castelo estava fechado no dia em que visitámos a aldeia mas foi possível percorrer um pequeno trilho que segue colado às grandes muralhas em pedra e que oferece vistas fantásticas para as serras adjacentes, numa conjugação de beleza natural e história que não se encontra em qualquer local.

Voltamos a embrenharmos-nos nas ruas estreitas e empedradas e fomos mais uma vez surpreendidos. O som praticamente neutro do vento que corria era agora interrompido por um canto coordenado que parecia vir da igreja que tínhamos pela frente. A sensação quente da voz humana naquele dia tão frio soube-nos muito bem e, naquele local tão histórico, criou uma memória que tão cedo não esqueceremos.

Falamos da igreja de São Pedro, uma estrutura que provavelmente data do início do século XVI tendo sido erigida pela ordem de Cristo. Esta igreja apresenta um estilo típico das igrejas beirãs, com uma nave única em pedra e restantes estruturas arquitectonicamente simples, com cobertura em madeira. O interior é muito rico, com vários frescos interessantes e um retábulo do altar em talha dourada que merece um olhar mais atento. Quando saímos da igreja, mantinha-se apenas o som do vento mas na realidade, toda aquela envolvência falava e passava para nós uma sensação de estarmos perante uma aldeia milenar que guarda tanto da sua história como da história de Portugal.

Há medida que vamos descendo novamente as ruas estreitas até ao carro somos várias vezes interpelados por pessoas simpáticas que nos perguntam se gostámos de visitar Marialva. A nossa resposta é directa: É impossível não gostar deste local, pela sua história, pela sua beleza, mas sobretudo, pelo que transmite, aquela sensação pesada de que ali tanto aconteceu e que hoje percorremos as mesmas ruas que já testemunharam muitas histórias.

Aconselhamos a todos que visitem Marialva e que explorem a zona norte da rede de aldeias históricas. Cada uma destas aldeias tem também sinalização que facilita deslocarem-se para a aldeia histórica mais próxima e poderem assim, de carro ou bicicleta, percorrerem estes locais que são na realidade janelas para a história do nosso país.

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Rui Monteiro Março 25, 2019 - 11:29 pm

Tive oportunidade de conhecer Marialva meia dúzia de anos. Foi com o prazer duma descoberta única que tive o primeiro vislumbre da antiga aldeia dentro de muralhas. Desde aí não me canso de lhe repetir o nome entre amigos, ainda que com um aperto no coração, não vá o seu encanto perder-se com demasiada atenção. Uma verdadeiro tesouro “no meu quintal”.
Aconselho o percurso por Numão em direção a Lamego, via Moimenta da Beira.. Em certos momentos tem-se a sensação de se estar perdido num deserto remoto, num tempo distante.

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Candal, o tesouro entre os caminhos da Lousã - 2Serependiters Maio 1, 2019 - 9:11 pm

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