Visitar Antuérpia – História com marca cosmopolita

por 2serependiters
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A Bélgica e as suas cidades permitiriam certamente escrever um livro e traduzir em textos e imagens a multiplicidade de estilos arquitectónicos que encontramos neste país, de histórias marcantes e decisivas e de museus distintos e cativantes que se encontram em todo o lado e que valem cada euro do bilhete. Visitar Antuérpia foi acima de tudo uma experiência visual riquíssima, numa cidade que é a ponte perfeita entre o modernismo cosmopolita e a historicidade clássica.

Antuérpia é a maior cidade da Flandres, em grande parte devido à posição privilegiada que ocupa no território Belga e que lhe permitiu durante séculos ser o principal ponto de trocas comerciais na região. Assim, no século XV Antuérpia era já o principal porto da Europa Central, em grande parte impulsionado pela criação de uma bolsa de valores que suportava também o desenvolvimento do mercado financeiro que até à altura era praticamente inexistente. A descoberta do caminho marítimo para Índia pelos portugueses deu ainda mais dinamismo à cidade de Antuérpia porque as especiarias que chegavam a Lisboa eram para aqui enviadas para serem trocadas por outros bens.

No século XVI esta cidade era então conhecida como a capital económica do Mundo. Esta prosperidade manteve-se nos séculos seguintes mas gradualmente a cidade foi transitando do foco na sua economia para ser um centro de desenvolvimento intelectual e cultural. Este apogeu histórico é ainda bem presente ao visitar Antuérpia, uma cidade que nos preenche e nos cativa assim que chegamos.

Como Visitar Antuérpia?

Como referimos nos nossos outros artigos sobre cidades Belgas (Podem ler aqui os artigos de Ghent e Bruges), tentámos maximizar o nosso Rail Pass e aproveitar ao máximo o valor que pagámos. Assim, o nosso meio de transporte escolhido foi o comboio, sendo a viagem extremamente rápida e confortável, não demorando mais do que 40 minutos a partir de Bruxelas. A estação de comboios de Antuérpia fica mesmo à entrada do centro histórico da cidade e ela própria é um monumento incrível. Assim, não é necessário utilizar outros meios de transporte para visitar a cidade, sendo possível fazer a pé todo o roteiro que apresentamos.

No percurso para Antuérpia a partir da capital passámos ainda em Mechelen. O nosso dia era apertado e portanto não conseguimos visitar esta cidade magnífica mas ainda assim, se tiverem tempo, podem tentar visitar as duas cidades no mesmo dia.

Visitar Antuérpia – Roteiro

Estação de comboios central

Ao chegar a esta cidade é impossível não ficar verdadeiramente impressionado com a estação de comboios. Construída no início do século XX e projectada pelo arquitecto Louis Delacenserie, este edifício quase todo em pedra escura trabalhada não se enquadra em nenhum dos estilos arquitectónicos que eram conhecidos à data e é frequentemente considerado o marco do “estilo arquitectónico dos caminhos de ferro”. 

A estação foi fortemente danificada durante os bombardeamentos na segunda guerra Mundial, tendo sido reconstruída e renovada posteriormente. O nosso destaque vai sobretudo para o hall de espera da estação, que nos transmite a sensação de estar num palácio à medida que vamos pisando o chão branco polido e transitando entre galerias com pilares adornados e retábulos com estátuas. Aconselhamos também a que apreciem a fachada do hall de chegada dos comboios e os pormenores em talha dourada de algumas secções.

Esta é considerada por muitos a estação de comboios mais bonita do Mundo e para nós essa é uma distinção totalmente merecida. A expansão e modernização da estrutura foi perfeitamente enquadrada no seu peso histórico e sentimos uma harmonia arquitectónica perfeita nesta estação. Sem dúvida, um excelente postal de entrada.

Quarteirão dos Diamantes

Antes de visitar Antuérpia sabíamos já da famosa ligação desta cidade com os diamantes e queríamos então ver com os nossos olhos até que ponto esta se materializava na cidade. Desde o século XV que Antuérpia era o destino final da rota dos diamantes que chegavam de África. Foi também nesta cidade que que o processo de polimento e lapidação de diamantes foi desenvolvido, o que historicamente atraiu para este centro os artesãos que queriam aprender esta arte e a nobreza que procurava o produto final trabalhado.

O quarteirão dos diamantes é um conjunto de ruas dispostas de forma perpendicular e que agrega as principais casas de venda de diamantes do Mundo. Estima-se que actualmente, mais de 80% dos diamantes do Mundo passem por este quarteirão. É ainda importante perceber a influência cultural que predomina nesta área da cidade em que mais de metade dos comerciantes de diamantes são de origem judia, arménia ou libanesa, dando continuidade a séculos de história no comércio de diamantes.

Este quarteirão fica muito próximo da estação de comboios e portanto foi fácil entrarmos nestas ruas cheias de placas brilhantes e requintadas anunciando as mais variadas casas de venda de diamantes. Eram poucas as montras já abertas àquela hora matutina mas ainda conseguimos apreciar vários expositores povoados pelas pedras preciosas impecavelmente trabalhadas e que custavam por vezes 200 ou 300 mil euros. Claramente um luxo apenas ao alcance de muito poucos mas que, naquele quarteirão, é também o ponto final numa história com séculos de tradição.

Rua Leysstraat e Meir

Continuando o nosso percurso em direcção aos locais mais centrais da zona histórica da cidade fomos percorrendo a Leysstraat que mais à frente se transforma na Avenida Meir, uma das mais famosas ruas de compras na Europa Central. No entanto, há muito mais nesta zona do que lojas famosas. Historicamente eram estas duas ruas que agregavam a maioria da nobreza e dos comerciantes ricos durante o século XVIII o que se traduz numa diversidade arquitectónica ímpar. Aqui encontramos vários edifícios dignos de um olhar atento, sobretudo nos estilos neoclássico e no estilo renascentista flamengo.

Há medida que vamos percorrendo estas ruas ficamos impressionados sobretudo com a riqueza das fachadas, frequentemente com adornos e estátuas nos retábulos e esquinas. O nosso destaque vai para o palácio real (Palais du Meir), residência real dos Reis belgas até meados do século XVIII. Para além disso, aqui viveram também Napoleão e toda a família real durante a primeira guerra Mundial. Neste palácio bem cuidado encontramos hoje uma das melhores chocolatarias do Mundo, a Royal Cocoa Company, que podemos visitar gratuitamente e até observar o fabrico local do chocolate. O palácio tem um pequeno átrio com esplanadas bastantes agradáveis, sendo um local excelente para uma pequena pausa.

Groenplaats e Catedral de Antuérpia

A rua Meir termina numa bifurcação junto a alguns dos edifícios mais modernos da cidade numa zona um pouco descaracterizada na amálgama de edifícios modernos e antigos. Continuando pela direita, chegamos rapidamente à Groenplaats. Esta praça frequentemente ignorada é possivelmente uma das melhores imagens da cidade. Em português Praça Verde, esta praça foi até ao século XVIII um grande cemitério de Antuérpia. Com a ocupação austríaca o imperador baniu os cemitérios dentro das cidades e surgiu então esta grande praça.

Aqui encontramos bem no centro da praça a estátua do famoso pinto belga Pieter Rubens. Para além disso, toda a edificação que rodeia este terreiro é digna de fotos, com as típicas casas coloridas belgas, vários cafés e casas de cerveja. A catedral de Antuérpia no topo norte da praça acaba por fazer deste local um dos mais bonitos da cidade, sobretudo pelo contraste entre a arquitectura tipicamente belga e a mais antiga e solene da catedral.

Seguimos por uma rua estreita e extremamente movimentada que contorna a secção lateral da catedral e rapidamente estamos numa pequena praça triangular e com a fachada principal da Catedral à nossa frente. A catedral da nossa Senhora (Onze-Lieve-Vrouwekathedraal) foi construída em 1521, no estilo gótico que caracterizava a época. Posteriormente sofreu vários danos durante invasões e revoluções mas sempre conseguiu recuperar, tendo sido renovada por duas vezes já no século XX.

A entrada na catedral é paga no local, no entanto é possível observar o seu interior a partir do pequeno hall da bilheteira. O interior é bastante rico, com várias pinturas de Rubens e outras obras de pintores franceses e belgas. Também do ponto de vista arquitectónico este local se torna muito interessante pela altura da nave central da catedral, que transmite uma imponência absolutamente incrível a quem visita. Por fim, sugerimos também um olhar atento aos trabalhados esculturais no arco da porta principal que são verdadeiramente magníficos.

A estátua de Nell e Patrasche

No centro desta praça encontrámos uma das melhores surpresas desta cidade. Em 1872 foi lançada a famosa história “O cão da Flandres” e desde então esta permanece bem vincada na memória de crianças e adultos de todas as idades. Neste conto que se passa entre Hoboken e Antuérpia, Nello é uma criança de orfanato muito pobre e que se torna amiga do cão Patrasche, um cão abandonado. Juntos percorriam as ruas de Antuérpia diariamente, em especial a zona da catedral da Nossa Senhora, onde o pequeno Nello passava longos períodos do dia a contemplar as pinturas de Reubens. Numa noite de Inverno particularmente fria, os dois amigos sem sítio para pernoitar acabam por ficar junto à catedral. O frio extremo provocou a morte de ambos mas os últimos momentos destes grandes amigos foram com os dois abraçados um ao outro.

Esta é uma estátua muito bonita, totalmente integrada na calçada e na envolvência da praça, simbolizando o valor da amizade e da ligação profunda entre homens e animais, que nunca deve ser esquecida e que resiste a todas as adversidades da vida. Destacamos ainda o magnífico trabalho escultural e a própria interpretação do artista que faz desta obra algo absolutamente cativante. Não é necessário pagar para ver a estátua pelo que aconselhamos vivamente a que não deixem de passar neste local ao visitar Antuérpia e que possam reflectir um pouco sobre o que este representa.

Praça Grote Markt

Continuando a percorrer as ruas cheias de gente no centro histórico de Antuérpia, chegamos àquele que é possivelmente o ponto nevrálgico desta cidade cosmopolita. O  Grote Markt, em português “Grande Mercado”, é uma das praças mais importantes da cidade e carrega um peso histórico e arquitectónico significativo. Desde os tempos medievais que nesta praça de desenrolavam grandes torneios de luta e outros acontecimentos chave na então cidade amuralhada de Antuérpia. No entanto foi com o auge do poder comercial no século XVI que esta praça viu nascer muitos dos edifícios que a rodeiam e que ainda hoje são dos principais pontos chave ao visitar Antuérpia.

No topo norte encontra-se o Stadthuis (câmara municipal) construído em 1565 e a grande referência renascentista em Antuérpia. Actualmente património da UNESCO, este edifício nasce da obstinação dos comerciantes mais ricos da cidade e que pretendiam ver nesta um reflexo da melhor e mais rica arquitectura da época. Toda a fachada se encontra incrivelmente adornada de estátuas e bandeiras. No entanto, o Stadthuis está actualmente em obras, não sendo possível fotografar a sua fachada ou visitar o edifício.

No centro desta praça magnífica encontrámos a estátua da fonte de Brabo. Inaugurada no final do século XIX, esta obra de arte reflecte a antiga lenda de que existiria um gigante nos mares junto a Antuérpia que cortaria as mãos de todos os capitães que se recusassem a pagar a passagem. O capitão romano Brabo não teve medo e enfrentou o gigante, cortando-lhe as mãos. É esse momento que se encontra representado nesta estátua magnífica e que merece um olhar atento. Com o Stadthuis em obras, este foi o nosso grande consolo no Grote Markt.

Nas restantes vertentes do Grote Markt, encontramos verdadeiras pérolas da arquitectura flamenga. As casas das antigas guildas comerciais dispõem-se de forma sequencial e contínua, com as suas janelas largas e fachadas ricas, mantendo o tradicional triângulo em escada na zona superior. Todos estes factores fazem deste local um dos mais importantes de Antuérpia e que deve absolutamente ser visitado.

Túnel de Santa Ana

Geralmente quando visitamos cidades europeias os túneis não aparecem como monumentos no nosso roteiro, no entanto, ao visitar Antuérpia facilmente percebemos que este túnel deve fazer parte de qualquer guia para esta cidade. Construído entre 1931 e 1933 este túnel com 572 metros atravessa o rio Escalda e liga através de um percurso pedestre as duas principais margens da cidade de Antuérpia. Durante muitos anos este foi o principal elo de ligação entre duas partes distintas da cidade e, de certa forma, a ligação entre a classe operária e a classe alta.

Actualmente este túnel é considerado património arquitectónico protegido e rapidamente percebemos porquê. Os vários lanços de escadas rolantes de madeira restaurados dão a este local um interesse significativo, que se complementa com o magnífico acervo fotográfico que vai acompanhando a nossa descida até ao nível do túnel. Tudo se mantém praticamente como foi construído e o cheiro a ferro, madeira e óleo paira sempre no ar, sendo este um óptimo local a visitar para os amantes de arquitectura do início do século XX. A entrada é gratuita e vale muito a pena atravessar o túnel até à outra margem, de onde conseguimos ter uma visão única do centro histórico de Antuérpia.

Museum Aan Den Stroom (MAS)

Depois de atravessarmos o centro histórico da cidade e o coração dos principais destaques arquitectónicos da cidade, entramos na zona ribeirinha, junto aos grandes canais que que fazem da Antuérpia um dos principais portos Europeus. Nesta zona da cidade, avenidas amplas e menos movimentadas são uma constante e é daqui que se conseguem as melhores vistas para a outra margem. Destacamos também as estátuas e a arquitectura desta zona da cidade que é tão distinta do que vimos nas zonas mais turísticas..

No fim das grande avenidas ribeirinhas, no sentido norte, encontramos o Museum Aan den Stroom (MAS). Este museu é na realidade um hino à arquitectura moderna e criativa, num estilo que muitos definem como arquitectura pós art-deco, Inaugurado em 2011 e com 60 metros de altura este é hoje um dia uma dos grandes ícones da Antuérpia cosmopolita. A entrada no museu é totalmente gratuita, sendo apenas pago o acesso a certas exposições permanentes. É assim possível subir os vários pisos deste museu e conseguir vistas fantásticas para a cidade de Antuérpia, culminando com a vista completa que se consegue do terraço do edifício.

Antuérpia é uma cidade fantástica e que adorámos visitar. Esta é uma cidade de contrastes onde o antigo se cruza com o moderno em cada rua. O cosmopolitanismo desta cidade é inegável e visitar Antuérpia é acima de tudo uma jornada arquitectónica e cultural mas que nos deixou muito satisfeitos. Aconselhamos a que não deixem esta cidade de fora dos vossos roteiros pela Bélgica.

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