Quinta do Sanguinhal, vinhos cheios de histórias

por 2serependiters
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Muitas vezes acabamos por percorrer longas distâncias, mesmo dentro do nosso próprio país, na esperança de encontrar locais que nos marquem e que sejam diferentes. Na realidade, deveríamos perguntar-nos – O quão bem conhecemos o que está mesmo perto de nós? Fizemos essa pergunta a nós mesmos e isso levou-nos a explorar um pouco mais a região do Oeste. Como fãs de história que somos e reconhecendo a ascendente que se te vindo a observar no que toca à qualidade dos vinhos desta região, porque não visitar uma quinta que nos encha as medidas nestas duas vertentes? Foi o que fizemos ao visitar a Quinta do Sanguinhal, no Bombarral. Continuamos assim a nossa série de visitas no âmbito do enoturismo (Podem ver mais aqui).

Quinta do Sanguinhal – História

A riqueza histórica deste local é um dos primeiros pontos que a nossa anfitriã, Ana, faz questão de realçar com o orgulho merecido. Tudo se iniciou com Abel Pereira da Fonseca, o seu bisavô, um homem empreendedor e metódico que nasceu nas Beiras mas que investiu inicialmente o seu património em 3 quintas nas região demarcada de Óbidos: A Quinta do Sanguinhal, a Quinta de São Francisco e a Quinta das Cerejeiras. No início do século XX, o império de Abel Pereira da Fonseca já não se limitava apenas à produção de vinho, mas também à distribuição do mesmo e de outros produtos alimentares, tendo fundado em 1906 uma cadeia de lojas em Lisboa. É possível também ver numa foto Fernando Pessoa a beber o vinho produzido nestas quintas e a destaca-lo pela sua qualidade. Em 1926 foi fundada a companhia agrícola do Sanguinhal que ficou com a alçada das 3 quintas produtoras de vinho e de fruta.

Ainda hoje esse património comercial permanece bem visível em Lisboa, na praça David Leandro da Silva. Também no Bombarral, a antiga casa de Abel Pereira permanece bem cuidada, com a sua arquitectura ímpar, mesmo ao lado da Quinta das Cerejeiras.

A visita à Quinta do Sanguinhal

Assim que se cruzam os portões da Quinta é impossível não ficar apaixonado pela arquitectura que temos pela frente, com um estilo tipicamente português, mas com marcas claras do início do século XX. Tudo isto conjugado com uma disposição perfeita de plantas e árvores junto ao edificado levam a que o nosso primeiro impacto depois de estacionar seja mesmo a contemplação.

Somos recebidos pela Ana, bisneta de Abel Pereira da Fonseca, que com uma simpatia e um discurso muito claro e detalhado nos vai contando a história desta quinta à medida que nos vamos encaminhando para a sala de pisa e fermentação. Damos por nós numa sala ampla, com uma pequena área rodeada de garrafas de vinho e algumas fotos históricas, mas o que nos capta mesmo a atenção são as traves de madeira com a inscrição “1871”. Ficamos então a perceber que esta é uma peça fundamental do complexo sistema de esmagamento da uva ali instalado, no qual esta trave funcionaria como um contra-peso que permitiria esmagar a uva com uma pressão significativa.

Esta sala é também a imagem perfeita para percebermos a dimensão da produção de vinho que estaria associada a esta quinta. Com 4 grandes tanques de esmagamento, a quinta do Sanguinhal tinha no início do século XX a maior capacidade de armazenamento de uva de toda a região Oeste. Prosseguimos a visita pela pelo edifício central da quinta, onde se efectuava o processo de destilação da aguardente. De imediato ficamos com o olhar preso no magnífico acervo industrial que esta sala possui. Os sistemas de destilação são os originais instalados nesta sala e permanecem perfeitamente conservados. Ficamos a saber que naquela sala centenária, se efectuam também casamentos e outros eventos e ao vermos as fotos percebemos facilmente porquê. Depois de mais uma explicação incrível da Ana, ficamos sem qualquer dúvida que esta sala é um espelho da riqueza patrimonial da quinta e do quão pioneiro foi Abel Pereira quando começou aqui a produção de vinho.

A visita continua de seguida para os jardins e à medida que nos embrenhamos na mancha verde impecavelmente cuidada fica a sensação de entrarmos dentro de um filme. Por entre cantos e recantos encontramos várias espécies de flores e arbustos, árvores centenárias, um tanque que espelha o verde das árvores na sua superfície e o cheiro das camélias e das rosas, sempre presente e tão relaxante. Este é um jardim que ninguém diria estar ali, de tão rico e cativante, mas que realça mais uma vez o enorme potencial da quinta do Sanguinhal para ser também um local de festas, de descoberta e celebração.

Quando damos por nós, o jardim ficou para trás e estamos agora no início de uma vinha imensa, que se perde pelo monte. É aqui que se produz uma parte da uva que irá dar origem aos vinhos Sanguinhal e é também aqui que se inicia há muitas décadas todo o processo quase artístico que termina com os vinhos espectaculares que esta quinta produz. Nesta altura do ano as maioria das vinhas estão podadas e é-nos dito que todo este processo é feito manualmente, tal como tantos outros ao longo da cadeia de produção.

Regressamos à entrada para descobrirmos o último segredo desta visita, a sala de amadurecimento e envelhecimento dos vinhos. A grande porta de maneira abre-se e imediatamente recebemos o cheiro intenso a algo alcoólico, num revisitar daquele cheiro que tão bem conhecemos das adegas. São vários os toneis de carvalho português que se dispõem ordenadamente nesta sala e até as teias de aranha são mantidas. Rapidamente a Ana explica-nos que estas ajudam a matar os insectos que podem danificar a madeira, evitando assim a utilização de produtos químicos que poderiam estragar o vinho.

Já cá fora, não podemos fechar a visita sem reparar na antiga balança para carros de bois onde era pesada a uva que outros produtores também vendiam à quinta do Sanguinhal. É um fecho cativante de uma visita onde a história se apruma e se mistura com a arte de produzir bom vinho e com uma beleza constante que o património edificado desta quinta reteve ao longo de tantos anos.

Visitar a quinta do Sanguinhal foi uma experiência única que nos cativou e marcou. Foi uma tarde de descoberta, de aprendizagem e de contemplação, numa conjugação de coisas boas que só o património completo e bem conservado nos consegue oferecer. Aconselhamos a todos a visita a esta quinta e em especial a todos aqueles que se interessam pela história da região e pela arte de produção vinícola.

Agradecimentos

Queremos desde já agradecer à Quinta do Sanguinhal, na pessoa da Ana, não só por toda a visita fantástica que nos proporcionou mas também pela efectivação da parceria com a Quinta e pela oferta desta experiência. Não temos qualquer dúvida de que o futuro será ainda mais risonho para esta Quinta e para todos os projectos que orbitam sobre ela.

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