Festa dos Tabuleiros, a beleza de uma tradição

por 2serependiters
0 Comentário

A cidade de Tomar é sem dúvida uma das mais marcantes no que toca ao património histórico, tendo sido o bastião da ordem dos templários em Portugal e apresentando uma arquitectura cativante e perfeitamente integrada na serra e na natureza que abraça a cidade. No entanto, Tomar é também uma janela aberta para uma tradição única e distinta, a festa dos Tabuleiros.

Esta festa centenária realiza-se de quatro em quatro anos e não quisemos perder a oportunidade de poder vivenciar esta experiência e, acima de tudo, de ficar a conhecer mais sobre a festa dos Tabuleiros e de sentir que esta cidade se mostra nas ruas, criando um ambiente que contagia qualquer visitante. Assim, passámos uma boa parte do dia a explorar a cidade de Tomar, naquele que é dia alto destas celebrações.

Como chegar a Tomar durante a Festa dos Tabuleiros?

A Festa dos tabuleiros atrai visitantes de Portugal e um pouco de todo Mundo. Efectivamente, nesta edição de 2019 estiveram presentes 600 mil pessoas de várias nacionalidades, preenchendo por completo a zona central da cidade.

Assim, escolher bem o modo de entrada da cidade pode ajudar a poupar algum tempo e a evitar confusões. Uma boa opção durante as festividades é utilizar o comboio para chegar a tomar. Existem comboios directos de Lisboa e em pouco menos de duas horas estamos praticamente no centro histórico da cidade. Outra hipótese é ir de carro e tentar entrar na cidade, mas durante a Festa dos Tabuleiros, isso não tarefa fácil.

Para quem opta então pelo automóvel, o parque de estacionamento do continente é possivelmente uma boa escolha. Apesar de ficar um pouco longe do centro histórico, é uma opção segura e longe da confusão e sem qualquer custo associado, uma vez que o parque é gratuito. O que não aconselhamos definitivamente é irem em excursões organizadas, isto porque a zona de paragem de autocarros é verdadeiramente caótica nestes dias e vão acabar por ir ter directamente com a confusão.  

Festa dos Tabuleiros
Ruas preenchidas

História da festa dos tabuleiros

A origem desta festividade situa-se algures durante o século XIV (Apesar de alguns estudo mais recente indicarem que pode ser muito mais antiga), muito marcado pelo culto do império do espírito Santo promovido pela rainha Santa Isabel. Assim, durante este período, esta festa de índole sobretudo religiosa fundiu-se com as festas populares pagãs que celebravam as boas colheitas e que ainda hoje se encontram bem notórias, com a presença das flores e das espigas nos tabuleiros. Outra das correntes históricas que contribuiu para o modelo actual da festa dos tabuleiros foi o franciscanismo e a sua componente de partilha, introduzindo o elemento do pão.

Durante os séculos seguintes o modelo da Festa dos Tabuleiros foi-se alterando e adaptando aos tempos. Até ao final do século XIX o cortejo anual era feito à Sexta-Feira, mas depois dessa data passou a ser feito ao Domingo. Foi também por esta altura que deixaram de existir sacrifícios animais. De certa maneira, o modelo actual da Festa dos Tabuleiros foi criado em 1950, agregando as várias festividades do concelho num só período festivo. Em 1991 foi introduzido o cortejo dos rapazes, em que participam crianças de várias escolas e jardins de infância do concelho.

Actualmente as festividades iniciam-se no Domingo de Páscoa, com a saída das coroas a qual se repete de 15 em 15 dias até ao dia do cortejo final, o qual se realiza também a um domingo. Neste cortejo desfilam pelas ruas decoradas centenas de pares, as raparigas com os tabuleiros à cabeça, acompanhadas pelos rapazes, com os carros do pão e dos bois a fechar o cortejo, representando os sacrifícios simbólicos. Dois dias antes do cortejo final realiza-se também o cortejo do mordomo.

Festa dos tabuleiros – O que visitar?

Durante a festa dos tabuleiros várias ruas da cidade são decoradas pelos moradores com flores e outros adornos de papel num espectáculo magnífico. Assim, uma parte da experiência destas festividades passa também por explorar as várias ruas do centro histórico e apreciar a beleza ímpar que preenche esta cidade templária.

Alameda 1 de Março

A entrada da maioria dos visitantes durante estes dias de festa é feita pelo lado este da cidade e assim, o primeiro contacto com ruas decoradas e com a festa propriamente dita é feito nesta avenida. A Alameda 1 de Março é uma avenida larga de prédios altos e cujos pisos térreos guardam recantos incríveis e que merecem uma visita. Em temas florais coloridos, são muitas as pequenas surpresas a explorar nesta zona.

Rua do Centro Republicano

Temos de dizer que esta foi sem dúvida uma das nossas ruas favoritas. A rua do centro republicano é uma rua longa e que neste ano foi decorada com o tema das 4 estações. Iniciamos este caminho com a primavera e com as flores magníficas que foram criadas em papel. São flores de todas as cores, rosas e papoilas que se dispõem dos dois lados da rua sob um céu azul vivo feito também de papel. Segue-se o Verão, com as árvores de fruto e a palha seca, tudo isto perfeitamente representado em papel. Foi inclusive colocado um baloiço entre árvores e que pode ser utilizado por todos!

Do Outono destacamos a forma perfeita como foram colocadas as folhas castanhas, vermelhas e alaranjadas. Mas diríamos que o auge desta produção é atingido no fim, com o inverno que nos chega com os tons de branco e cinzento, mas numa harmonia perfeita e sem esquecer o boneco de neve feito em papel. Toda esta rua é acima de tudo uma exposição artística, e por isso, merece definitivamente o nosso destaque.

Rua de Santa Iria

Continuando em direcção do centro da cidade houve uma rua que nos prendeu a atenção. Com várias flores em papel e um arco totalmente decorado, a Rua de Santa iria oferecia aos visitantes uma verdadeira viajem aos elementos que marcam a festa dos Tabuleiros, com várias imagens e explicações dos trajes tradicionais das festividades, sempre sem esquecer a ligação histórica à natureza e à agricultura.

Exposição dos tabuleiros

Durante a manhã do dia do cortejo final, os tabuleiros estão em exposição na mata dos sete montes. Esta é uma mata nacional, que se estende do convento de Cristo até ao centro da cidade de Tomar. Esta mancha verde é na realidade um local magnífico a explorar, com várias espécies arbóreas e parques incríveis.

A entrada para o parque durante a exposição só é feita até às 12h e tem o custo de 2€ por pessoa. As filas eram extensas, mas mesmo assim conseguimos entrar a tempo. São centenas de tabuleiros dispostos em sequência nos limites do primeiro parque da mata. De certa maneira, estamos rodeados de ambos os lados por estas composições magníficas, com cores vivas e com a coroa do espírito santo no topo. À medida que vamos percorrendo a exposição, é impossível não ficar surpreendido com o grau de detalhe dos tabuleiros, os quais recriam várias espécies diferentes de flores,  incluindo até os estames ou pequenas abelhas e outros insectos.

Não há dois tabuleiros iguais e é essa variedade que faz também desta festa uma tradição verdadeiramente marcante no nosso país. Não deixem de visitar os tabuleiros em exposição, sobretudo porque é a melhor maneira de os ver de perto, algo que é difícil durante o cortejo.

Rua Pé da Costa de Baixo

Na Festa dos Tabuleiros, cada rua tem normalmente um tema e a Rua Pé da Costa do Baixo, com a sua proximidade ao convento de Cristo optou por uma decoração alusiva à história da cidade e à própria história nacional. Assim, na entrada da rua são recriadas com flores a cruz de Cristo, famoso símbolo templário e outras heráldicas históricas. O nosso destaque nesta rua vai para a caravela portuguesa totalmente construída em papel e para o destaque dado ao Infante Dom Henrique.

É uma rua interessante, sobretudo porque pretende oferecer uma viagem pela história do nosso país, totalmente recreada em papel. Daqui, estamos praticamente no centro histórico de Tomar e são várias as ruas decoradas, tornando-se inclusive difícil circular face à quantidade de visitantes.

Rua do Teatro

Na rua que alberga o cine-teatro da cidade o tema não poderia ser outro. Assim, fazemos uma viagem em papel pelas várias estrelas mundiais de cinema e de teatro. No entanto, esta rua guardou para os visitantes uma outra mensagem, mais importante. São incluídas várias notas junto a cada uma das estrelas e que pretendem alertar para as dificuldades e para a pressão de quem optou por uma vida dedicada à representação.

Travessa do Arco

Depois de tantas ruas magníficas achámos que dificilmente iríamos ser surpreendidos. Não podíamos estar mais enganados. A travessa do arco é uma pequena rua que durante estes dias se transforma no auge da criatividade e beleza da Festa dos Tabuleiros. Temos agora perante nós um verdadeiro recanto magnífico, por entre tons de lilás e cor de rosa, recreando um caminho rodeado de flores e que à primeira vista, parece mesmo real.

O que mais impressiona nesta rua é o equilíbrio de tons perfeito que foi conseguido utilizando apenas 3 cores. Quisemos ficar algum tempo a desfrutar deste pequeno paraíso que não é natural mas é naturalmente marcante.

Rua Pedro Dias

Ficámos curiosos com a grande placa que anunciava “Quinta Pedro Dias” no início desta rua longa e quisemos descobrir o que nos guardaria este recanto. Aqui o tema principal é claramente a agricultura, mas o trabalho dos populares é verdadeiramente magnífico. São abóboras, alfaces, couves, cenouras e vários animais, tudo recriado em papel com uma dedicação incrível. Foi uma boa surpresa que tivemos e a que queremos dar o devido destaque.

Rua Dona Aurora de Macedo

Já perto da praça da República encontramos a pequena rua Dona Aurora de Macedo. É uma rua bonita, decorada com motivos florais, mas o que se destaca também aqui é o facto de no meio da rua existir também um pequeno jardim com flores de papel, traduzindo um trabalho árduo e um esforço importante em criar algo distintivo.

Praça da República

O centro nevrálgico da cidade de tomar e uma praça sempre cativante. A praça da República não tem muitas decorações em papel, no entanto, a conjugação das várias faixas vermelhas nas janelas que rodeiam o terreiro e o facto de este ser um ponto principal no cortejo final dos tabuleiros fazem deste local um ponto de paragem obrigatório. Quando aqui passámos, já se sentia a ansiedade e expectativa no ar, com imensa gente já nas bancadas para ver o cortejo.

Praça da República

Cortejo das Coroas e dos pendões

Como referimos anteriormente, as festividades iniciam-se com o primeiro cortejo das coroas no Domingo Páscoa e mantêm-se nos meses seguintes. O último cortejo das coroas e dos pendões é assim no dia do cortejo final. Quando explorávamos as ruas decoradas tivemos a sorte de poder observar o cortejo.

Com duas bandas, uma no início e uma no fim, o cortejo foi avançando pelas ruas estreitas e totalmente preenchidas com pessoas. Foram três as coroas, representando os impérios e os Reis, anunciadas pelo pendão do espírito Santo. Este é um momento marcante da festa dos tabuleiros, por ser o culminar de vários meses de festividades e por representar a face mais antiga e religiosa desta celebração.

Cortejo final da Festa dos Tabuleiros

O cortejo final dos tabuleiros é o ponto alto desta grande festa. É o culminar de anos de trabalho e uma oportunidade única para ver centenas de tabuleiros, guiados pelos pares com os trajes típicos. A imagem criada pela junção de tudo o que é marcante nesta Festa dos Tabuleiros é muito mais do que uma simples soma. Não há palavras que permitam descrever o quão bela é esta tradição.

Festa dos Tabuleiros – Conclusão

Este foi um dia que nos marcou verdadeiramente, especialmente porque superou todas as nossas expectativas. Já visitámos várias vilas e cidades portuguesas e testemunhámos tradições na primeira pessoa, mas a Festa dos Tabuleiros é incrivelmente única. A próxima edição tem lugar em 2023 e contamos poder estar presentes mais uma vez. E vocês?

Sugerimos

Deixe um comentário